Estou a passar pela Unidade de Emergência que é um hospital no centro de Ribeirão Preto especializado em urgências. Lá só entram doentes que foram encaminhados por unidades de saude primarias (centros de saude) e secundárias (hospitais estaduais). Apesar da gravidade das doenças não se vive o stress do excesso de doentes que caracteriza o regime livre-demanda das urgências portuguesas.
Concentram-se todos os casos agudos graves género AVCs, enfartes, politraumatizados, picadas de escorpião, cobra... mas também os casos semi-agudos como pneumonias graves, e os crónicos em mau estado: cirrose, DPOC... As doenças são por isso já alvo de um filtro e se não forem realmente graves não entram! O problema é que às vezes casos graves também não entram.
Em Portugal entra tudo juntando o AVC com a crise de ansiedade e a gripe. Tem a vantagem de ser um sistema aberto a todos mas a desvantagem de ser menos estimulante e didatico para estudantes e médicos também eles em formação, para não falar dos custos (há 2 anos uma ida à urgencia custava 150 euros e ao centro de saude 50, ao estado).
Pelas doenças é por isso super interssante mas o que faz mais a diferença são os profissionais que lá trabalham na sua maioria verdes por fora mas maduros por dentro. Pessoas com pouco mais do que a minha idade que me deixam de boca aberta com as responsabilidades que assumem e com o que sabem!!!É impressionante! Chegue o que chegar eles dão conta do recado! Acho que é essa a escola... a da prática.
Mas não nos atiram sozinhos para os leões. Dão-nos o chicote e poê-nos à frente dele mas estão atrás de nós a dizer o que temos de fazer quando é preciso.
E estão mesmo. Desculpem esta repetição mas isso impressionou-me muito quando cá cheguei por oposição ao tratamento a que a minha faculdade em lisboa me habituou. (digo isto mas não acho que seja muito melhor no resto de portugal e da europa)
No primeiro dia por exemplo tive um caso de um doente com suspeita de cirrose. Fui recebe-lo, tentar domar o leão. Fui o primeiro a vê-lo, colhi os dados todos, fiz a sua história clinica e depois de o examinar fui discutir o caso com o médico mais velho. Sentamo-nos a conversar sobre o doente e sem me aperceber ele fez-me mil perguntas sobre imensas doenças e fui respondendo a umas, abanando com a cabeça a outras, que ele respondia, e fui fazendo outras. Deixou-me pedir exames que achava certos e sugeriu-me outros mas sempre com imensa paciencia com as minhas ignorâncias. Estive até às 3:00 a discutir o caso e a passar exames que ia interpretando e conversando com ele. Chegou a altura de fazer uma paracentese (colher liquido abdominal guiado pela ecografia) e como era eu que estava a acompanhar o caso não foi ele, nem internos, nem especialistas de gastro ou cirurgia a fazer. Fui eu! Veio um interno orientar-me mas nunca tocou no doente. Deixou-me fazer tudo e com toda a paciencia às tantas da manha ajudou-me a fazer a minha primeira paracentese. Fomos conversando mais sobre cirrose e nessas horas pacatas de hospital à noite revi com entusiasmo um capitulo árido do Harrison e tão cedo não me esqueço de pormenores que nunca entrariam na cabeça a ler o livro.
O doente ficou feliz da vida porque sentiu um alivio importante e porque depois de 3 meses a circular de meca...para meca foi investigado exaustivamente em 5-6 horas com rx, eco, tc e todo o tipo de analises laboratoriais que faziam sentido e que podemos fazer. Senti que o meu tempo dedicado com este doente podia fazer alguma diferença na sua história futura. E o pessoal mais velho se eu não estivesse lá claro que seguravam o leao mas já que me tinham dado essa responsabilidade... aproveitei. Adorei. Só para acabar a história descobrimos que ele tinha algumas coisas mas não justificavam o quadro. Passados 2 dias a acompanhá-lo fiquei com outro doente e passados mais dois ou três foi transferido para a enfermaria onde vinha a morrer 3 dias depois. Não chegou a saber o que tinha e não se defeniu a causa de morte...
Passado uma semana fui para os cuidados intensivos e no final da semana estava a voltar do almoço quando um médico se virou para mim e me perguntou se eu queria chocar um doente!
Fiquei super apreensivo, achei que não me ia deixar mas veio o carrinho com o desfibrilhador, começou o reboliço e no fim fui mesmo eu! Foi super cómico e descontraído: deu-me meia duzia de recomendações, peguei nas pás e ele disse com uma cara super séria: "Agora voçê vai dizer a segunda frase mais grave da medicina para essa enfermeira: Põe-geu-nais-pá!" apesar dos nervos ainda me ri um bocado. A enfermeira lá pos o gel e eu lá disse a lenga lenga dos choques aqui no brasil:
Tou fora
Todo mundo fora
Vou chocar
Barulho agudo e carreguei nos botões. O doente dá um coice (bem mais pequeno que no ER) e ficamos a olhar o monitor. Uma médica traçou um novo electro enquanto o outro que era o pagode foi ligar o rádio. Dava uma musica que fazia lembrar o lança perfume. Pos aquilo alto e no meio daquele stress começou a cantarolar. O quadro foi de rir. Dificil de vos explicar. O stress de um choque uma musica de verão alegre e 10 corpos entubados no meio de bips-bips. O doente saiu do ritmo aberrante e foi a alegria. O choque "deu certo".
Ao contrário da outra experiencia não aprendi nada (teórico), não discuti o caso (não havia tempo) mas pus a mão na massa. Não tive papel quase nenhum, nada partiu de mim mas foi bom! Porque mexi, num ambiente receptivo. E essa é a melhor forma de aprender! Praticar num ambiente condescendente, receptivo com pessoas que querem realmente passar o testemunho.