quinta-feira, 30 de abril de 2009

Ouro Preto









 




















Este fim-de-seman fez 15 dias que fomos conhecer Ouro Preto. 
Era uma viagem que já tínhamos planeado fazer antes, num fim-de-semana "standard" de dois dias, mas depois os 600km de estrada em más condições desanimaram-nos pelo que aproveitámos um fim-de-semana grande de 4 dias para irmos até lá num Wolkswagen GOL alugado.
 Partimos cedo, às 6h45 estávamos a sair de casa, e alguns kms depois de sairmos de Ribeirão a viagem já estava a valer a pena! 
 A paisagem era incrível! 
 Vimos campos de cana de açúcar a perder de vista, depois campos de café e, já em Minas, fizemos kms à margem de um lago gigante! Passámos por duas corujas e a sua toca na terra, formigueiros que formavam enormes pirâmides de barro e um tucano em pleno voo!! Quando parávamos para comer ou por gasolina também não deixávamos de nos surpreender: o café pedido ao balcão ou à mesa e servido em copos de vidro, bem fresquinho e açucarado, era sempre de graça!! (Bem dizia no Lonely Planet que os mineiros são os mais hospitaleiros de todos os brasucas!) E numa, das estações de serviço, vimos uma carrinha de caixa aberta com um cavalo em cima!! 
 Depois de 11 horas de viagem chegámos ao nosso destino: o Pouso do Chico-Rei, casa do séc. XVIII no centro de Ouro Preto, há muitos anos transformada em pousada e conhecida por já ter hospedado visitantes ilustres como o Vinicius de Moraes e o Pablo Neruda!! Fomos conquistados pelo charme daquele espaço rústico e cheio de história e também pelo óptimo pequeno-almoço que, além dos bolinhos e sumo natural da praxe, incluía o famoso pão de queijo mineiro acabadinho de fazer!! Hum!!...
 E Ouro Preto? É tudo o que se diz dela: cidade pequena e toda aos altos e baixos, a maioria das ruas é rampa íngreme! Cheia de repúblicas de estudantes universitários com nomes insólitos como "Necrotério" ou "Maternidade" é também a cidade das igrejas, do famoso herói Tiradentes e do maior artista barroco brasileiro, o "Aleijadinho".
 Quando passeamos em Ouro Preto é quase como se tivéssemos voltado atrás no tempo e estivéssemos numa vila portuguesa de há três séculos atrás. As igrejas barrocas multiplicam-se e as ruas são todas de casas pequenas, paredes brancas, esquadrias de cores fortes e varandas de ferro trabalhado! 
 Passeámos nas ruas, visitámos o Museu da Inconfidência, antiga prisão, onde ficámos a saber tudo sobre o que foi a "Inconfidência Mineira", o Grande Hotel de Ouro Preto - um dos primeiríssimos projectos do Niemeyer -  fomos até à vila vizinha Mariana e descemos àquela que já foi a maior mina de ouro do mundo!!
 Foi um fim-de-semana que nos fez sentir que vale a pena estar cá!! :) 
 Este Brasil é muito "massa"!!!
 

terça-feira, 28 de abril de 2009

Passe moça?

Uma das coisas mais "fora" e que me deixaram mais perplexa quando, pouco tempo depois de chegarmos a Ribeirão e de sermos lançados no mundo- Hospital das Clínicas- foi o fenómeno das paragens de ônibus: 

A que fica ao ao pé do hospital é uma autêntica feira! Está sempre cheia, cheia de gente a ir e a chegar e todos os dias, enquanto há luz, apinhada de vendedores das mais variadas coisas desde o mais banal como garrafas de água e picolés até ao mais estranho como panos de cozinha! Passando pelas sras que vendem côcada e doce de leite caseiros até aos srs com carrinhos cheios de goiabas!

Mas o mais giro são os homens dos passes!
No primeiro dia em que me aproximei de um autocarro para perguntar ao motorista se ia até ao centro da cidade veio logo um homem afogueado a correr atrás de mim:
- "Passe moça?" perguntou-me ele.
Fiquei a pensar o que viria a ser isso quando chegou outro passageiro do ônibus e, logo ali, fez negócio com o homem! 
Então percebi: aqueles rapazes que andavam a correr afogueados atrás de toda a gente que viam com intenções de entrar num autocarro vendiam "passes" para os mesmos, cobrando cada viagem 0.20R$ mais barata do que se a comprássemos dentro do autocarro!
O esquema deles é comprarem um passe recarregável no qual põem o máximo de unidades possível para depois venderem cada uma delas a quem precisa de bilhete! Funcionam como uma espécie de bilheteira não oficial!
Quando percebi o que faziam fiquei a achar que era um "negócio ilícito" e que seria arriscado comprar-lhes o bilhete mesmo nas barbas do motorista que também estava a vender dentro do autocarro mas poucos minutos depois percebi que eles eram todos velhos conhecidos! 
Ou seja, este negócio paralelo de venda avulso de titulos de viagem dos passes não foi, pelos vistos, visto com maus olhos pelas empresas de onibus e estes "srss dos passes" andam aí aos montes!
E agora que já sei do esquema ando sempre à procura de um para poupar os meuis 0.20R$! Além disso têm sempre troco (o que é raro se comprarmos dentro do autocarro) e sabem os percursos de qualquer ônibus que passe na paragem (o que não podia dar mais jeito!) ;)

segunda-feira, 27 de abril de 2009

corrida

Em expectativa com os dias que se seguem:
Mesmo que tudo corra bem e que esta epidemia não vire pandemia os hospitais vão servir para tratar casos esporádicos que se confirmem e para excluir suspeitas. As suspeitas vão ser ... brutais, porque as pessoas já estão preocupadissimas e desta vez os médicos também (ao contrário do sentimento geral sentido com a gripe aviária).
 Por isso, mesmo que não morra mais gente do que os milhões que morrem todos os anos com a gripe, pode-se esperar uma sobrecarga dos serviços.
Aqui em Ribeirão preto a pipa soube que no apogeu da gripe aviária o número de camas em isolamento respiratório subiu de 4 para 40. A gripe aviária não era transmitida pessoa pessoa. Se esta é, em vez de 10 vezes mais, vamos ter quanto? 

Pergunto-me também como é que cada país se ressentiria nesse cenário. Na europa para além das melhores condições sanitárias os governos tinham tomado várias medidas para conter a gripe aviária entre as quais a criação de stocks de tamiflu. Pensando bem esse epílogo do influenza pode ainda ter servido para alguma coisa. Já na ásia, na américa latina e em áfrica a conversa é outra. Vamos ver...




PS: Como ainda estamos numa fase especulativa resolvi ver como é que as pessoas que fazem da especulação o seu ganha pão reagiram aos alarmes da OMS, CDC ... Fui ver as cotações das bolsas e em wall street o indice desceu 1% com a previsão das quedas dos resultados das transportadoras aéreas e das empresas hoteleiras. 
O tamiflu, o remédio que tem sido apontado como solução para o problema é comercializado pela Roche. Hoje as suas acções subiram 3%.
Parece que neste dia o cavalo com mais apostas foi o da pandemia e o que espero é que ele perca!

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Aprendendo

Estou a passar pela Unidade de Emergência que é um hospital no centro de Ribeirão Preto especializado em urgências. Lá só entram doentes que foram encaminhados por unidades de saude primarias (centros de saude) e secundárias (hospitais estaduais). Apesar da gravidade das doenças não se vive o stress do excesso de doentes que caracteriza o regime livre-demanda das urgências portuguesas.
Concentram-se todos os casos agudos graves género AVCs, enfartes, politraumatizados, picadas de escorpião, cobra... mas também os casos semi-agudos como pneumonias graves, e os crónicos em mau estado: cirrose, DPOC... As doenças são por isso já alvo de um filtro e se não forem realmente graves não entram! O problema é que às vezes casos graves também não entram. 
Em Portugal entra tudo juntando o AVC com a crise de ansiedade e a gripe. Tem a vantagem de ser um sistema aberto a todos mas a desvantagem de ser menos estimulante e didatico para estudantes e médicos também eles em formação, para não falar dos custos (há 2 anos uma ida à urgencia custava 150 euros e ao centro de saude 50, ao estado).
Pelas doenças é por isso super interssante mas o que faz mais a diferença são os profissionais que lá trabalham na sua maioria verdes por fora mas maduros por dentro. Pessoas com pouco mais do que a minha idade que me deixam de boca aberta com as responsabilidades que assumem e com o que sabem!!!É impressionante! Chegue o que chegar eles dão conta do recado! Acho que é essa a escola... a da prática. 
Mas não nos atiram sozinhos para os leões. Dão-nos o chicote e poê-nos à frente dele mas estão atrás de nós a dizer o que temos de fazer quando é preciso.
E estão mesmo. Desculpem esta repetição mas isso impressionou-me muito quando cá cheguei por oposição ao tratamento a que a minha faculdade em lisboa me habituou. (digo isto mas não acho que seja muito melhor no resto de portugal e da europa)

No primeiro dia por exemplo tive um caso de um doente com suspeita de cirrose. Fui recebe-lo, tentar domar o leão. Fui o primeiro a vê-lo, colhi os dados todos, fiz a sua história clinica e depois de o examinar fui discutir o caso com o médico mais velho. Sentamo-nos a conversar sobre o doente e sem me aperceber ele fez-me mil perguntas sobre imensas doenças e fui respondendo a umas, abanando com a cabeça a outras, que ele respondia, e fui fazendo outras. Deixou-me pedir exames que achava certos e sugeriu-me outros mas sempre com imensa paciencia com as minhas ignorâncias. Estive até às 3:00 a discutir o caso e a passar exames que ia interpretando e conversando com ele. Chegou a altura de fazer uma paracentese (colher liquido abdominal guiado pela ecografia) e como era eu que estava a acompanhar o caso não foi ele, nem internos, nem especialistas de gastro ou cirurgia a fazer. Fui eu! Veio um interno orientar-me mas nunca tocou no doente. Deixou-me fazer tudo e com toda a paciencia às tantas da manha ajudou-me a fazer a minha primeira paracentese. Fomos conversando mais sobre cirrose e nessas horas pacatas de hospital à noite revi com entusiasmo um capitulo árido do Harrison e tão cedo não me esqueço de pormenores que nunca entrariam na cabeça a ler o livro.
O doente ficou feliz da vida porque sentiu um alivio importante e porque depois de 3 meses a circular de meca...para meca foi investigado exaustivamente em 5-6 horas com rx, eco, tc e todo o tipo de analises laboratoriais que faziam sentido e que podemos fazer. Senti que o meu tempo dedicado com este doente podia fazer alguma diferença na sua história futura. E o pessoal mais velho se eu não estivesse lá claro que seguravam o leao mas já que me tinham dado essa responsabilidade... aproveitei. Adorei. Só para acabar a história descobrimos que ele tinha algumas coisas mas não justificavam o quadro. Passados 2 dias a acompanhá-lo fiquei com outro doente e passados mais dois ou três foi transferido para a enfermaria onde vinha a morrer 3 dias depois. Não chegou a saber o que tinha e não se defeniu a causa de morte...

 Passado uma semana fui para os cuidados intensivos e no final da semana estava a voltar do almoço quando um médico se virou para mim e me perguntou se eu queria chocar um doente!
Fiquei super apreensivo, achei que não me ia deixar mas veio o carrinho com o desfibrilhador, começou o reboliço e no fim fui mesmo eu! Foi super cómico e descontraído: deu-me meia duzia de recomendações, peguei nas pás e ele disse com uma cara super séria: "Agora voçê vai dizer a segunda frase mais grave da medicina para essa enfermeira: Põe-geu-nais-pá!" apesar dos nervos ainda me ri um bocado. A enfermeira lá pos o gel e eu lá disse a lenga lenga dos choques aqui no brasil:
Tou fora
Todo mundo fora
Vou chocar

Barulho agudo e carreguei nos botões. O doente dá um coice (bem mais pequeno que no ER) e ficamos a olhar o monitor. Uma médica traçou um novo electro enquanto o outro que era o pagode foi ligar o rádio. Dava uma musica que fazia lembrar o lança perfume. Pos aquilo alto e no meio daquele stress começou a cantarolar. O quadro foi de rir. Dificil de vos explicar. O stress de um choque uma musica de verão alegre e 10 corpos entubados no meio de bips-bips. O doente saiu do ritmo aberrante e foi a alegria. O choque "deu certo".
Ao contrário da outra experiencia não aprendi nada (teórico), não discuti o caso (não havia tempo) mas pus a mão na massa. Não tive papel quase nenhum, nada partiu de mim mas foi bom! Porque mexi, num ambiente receptivo. E essa é a melhor forma de aprender! Praticar num ambiente condescendente, receptivo com pessoas que querem realmente passar o testemunho. 

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Rio de Janeiro



Este fim de semana aproveitamos o feriado da sexta feira santa para conhecer o rio.
A cidade é tudo aquilo que já disseram dela: perigosa, com muito crime, muita pobreza na porta ao lado da riqueza e bonita.
Antes de ir para lá estava focado na insegurança e quando lá cheguei fiquei ofuscado com a beleza. Não consigo conceber uma cidade mais bonita e apaixonante do que o rio. Aqueles penedos gigantes-impossiveis-inusitado-incriveis! que emergem no meio da praia, do mar e de uma trama urbana densa que parece que se acumulou para ver "aquilo" e que se pos onde coube e onde conseguiu. Um espectáculo da natureza que não é descritivel com justiça!!
O sotaque mais bonito dos cariocas e os cariocas mais bonitos, a história tão extinta em são paulo presente aqui!
Apesar dos desiquilibrios todos sociais que enchem paginas de jornais o rio parece equilibrado pela mistura de praia, natureza exuberante, cidade cosmopolita, cultural e histórica!

É mesmo maravilhosa! e no primeiro dia já estava a dizer que queria voltar porque os 4 dias pareciam demasiado poucos para aquela energia!

e continuo a querer

segunda-feira, 13 de abril de 2009